Hans Staden escapou por muito pouco de ser abatido e devorado pelos tupinambás em 1556. Darcy Ribeiroi acha que o alemão teria perdido seu valor como iguaria aos olhos dos nossos belicosos nativos porque chorou e pediu clemência pela sua vida. Virou proteína sem coragem e ficou meio largado na aldeia; ninguém estava muito disposto a comê-lo. Bem provável.

Staden não teve como evitar, entretanto, que seu livro fosse sistematicamente esquartejado e devorado regularmente desde a sua publicação em 1557. E isto não é apenas um lamento, é também uma constatação do vigor da sua obra, já que tantos estão dispostos a reeditar, traduzir, recontar e adaptar o relato do habilidoso arcabuzeiro de Hessen.

Meu interesse específico se concentra nas traduções do livro de Staden para o português, uma tarefa sempre muito espinhosa por no mínimo três fatores:

  • O texto original de 1557 é escrito em Frühneuhochdeutschii. Todas as traduções das edições brasileiras disponíveis atualmente são baseadas em uma única versão, a de Karl Fouquetiii, de 1942. Não há, portanto, uma edição em português que tenha se baseado no original. Até hoje, todas as versões de Staden em português são totalmente dependentes da versão de Fouquet.

  • Staden descreveu pessoas, lugares, objetos e diálogos em diferentes línguas, a maior parte em tupi, mas também em português, espanhol e francês. Isto obriga o tradutor a escolher se mantém a grafia original, se atualiza para o contemporâneo (baseando-se em fontes precisam ser selecionadas) ou se opta por inclui notas de tradução.

  • Staden escreveu há quase quinhentos anos. Há quem acredite que uma tradução deste tipo deva apontar para esta distância, e há quem prefira tentar trazer o texto para o nosso tempo.

Portanto, qualquer tradução de Staden impõe escolhas muito determinadas. Não há possibilidade de se fazer uma tradução isenta. E são justamente estes motivos que me atraem para traduzir Staden: fazer as minhas escolhas.


A recente publicação da edição crítica do Instituto Martius-Staden organizada por Franz Obermeieriv ofereceu uma oportunidade interessante para abordar a tradução de uma nova perspectiva, pois traz o texto em alemão moderno na versão de Joachim Tiemann. O Staden de Fouquet difere bastante do Tiemann, e certamente estas diferenças se refletem nas traduções em português. Resolvi, portanto traduzir um capítulo da versão de Tiemann para compará-lo com as duas versões em português que existem baseadas em Fouquet, a saber:

  • Duas viagens ao Brasil, tradução de Guiomar Carvalho Franco. São Paulo: Editora Itatiaia, 1988

  • Hans Staden: Primeiros registros escritos e ilustrados sobre o Brasil e seus habitantes, tradução de Angel Bojadsen. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 1999

O excerto escolhido foi o Capítulo 23 da segunda parte, onde Staden descreve com seus olhos protestantes uma cerimônia religiosa dos seus captores tupinambás. Este capítulo me parece particularmente interessante, pois contém um relato que por definição não pode ser imparcial. É extremamente revelador para quem se interessa por estudar as diferenças de perspectivas culturais tão distantes que são confrontadas. Além disso, contém várias passagens que exigem escolhas de caráter mais técnico por parte do tradutor:

  • Como traduzir as medidas de comprimento, volume e área citadas por Staden? Manter a nomenclatura original, traduzir, inserir nota com a equivalência ou tentar uma combinação de ambos?

  • Deve-se marcar os termos em tupi? Manter a grafia original, atualizar ou assinalar que se tratava de palavra diferente do alemão?

  • Como reproduzir os diálogos em tupi?

  • Devem-se manter as repetições de palavras?

Os tradutores brasileiros de Staden parecem não ter se preocupado com estas questões, limitando-se a transcrever o texto que tiveram como referência.

Estilo cru

O estilo narrativo do relato de Staden em alemão é cru. Trata-se quase um relatório de atividades em terras estrangeiras, salpicado aqui e ali por demonstrações de fervor religioso, manifestações esporádicas de opiniões e raramente algum comentário que possa ser considerado como irônico ou depreciativo. Mas o esforço em parecer objetivo é patente. Se compararmos seu relato com o de Jean de Léry, que escreve na mesma época sobre o mesmo assunto, a diferença salta aos olhos. Enquanto o estilo de Léry é exuberante e grandiloqüente, Staden se contenta em fixar seu relato no papel.

Há repetições que hoje soam repetitivas, sem dúvida Staden não está preocupado com estilo, apenas quer contar o que viveu.

  1. Sem medidas

O capítulo começa com uma descrição do maracá, que ainda hoje é popular entre os índios brasileiros.

Reproduzo as versões em alemão moderno de Fouquet e Tiemann e depois as traduções em português.


Karl Fouquet

Joachim Tiemann

Die Wilden glauben an ein Ding, das wie ein kübis wächst. Es ist so gross wie ein Topf von einem hlaben Mass un innen hohl. Sie stecken ein Stöckchen hindurch, schneiden ein Loch wie ein Mund hinein un tun kleine Steine hinein, dass es rasselt. Damit rasseln sie, wenn sie singen und tanzen. Sie nennen es Maracá.

Sie glauben an ein Ding, das wächst wie ein Kürbis, ist so groβ wie ein Halbmaβ-Gefaβ, ist inwendig hohl. Sie stecken ein Stocklein hindurch, schneiden ein Löchlein hinein wie ein Mund und tun kleine Steinlein hinein, dass es rasselt, rasseln damit, wenn sie singen un tanzen, und heiβen es Maracá.


Carvalho Franco

Angel Bojadsen

Werner Plaas

Os selvagens crêem numa cousa que cresce como uma abóbora. É grande como um pote de meia pinta e ôca por dentro. Fincam-lhe através um pequeno cabo, cortam-lhe uma abertura como uma boca e metem-lhe no interior pequenas pedras, de modo que chocalha. Sacolejam isto quando cantam e dansam. Chamam-no maracá.

Os selvagens acreditam numa cousa que cresce de forma parecida a uma abóbora. É grande como uma panela de meia pinta e oca por dentro. Eles enfiam um bastão através dela, recortam um buraco com a forma de uma boca e colocam pequenas pedras em seu interior, de modo a fazer um chocalho. Sacolejam isto quando cantam e dançam. dão-lhe o nome de maracá.

Eles acreditam em uma coisa que cresce como uma abóbora. É do tamanho de um pote de meia medida*, oco por dentro. Eles enfiam um bastãozinho, cortam, um buraco no formato de uma boca e põe pedrinhas dentro para chacoalhar. Quando dançam e cantam, chacoalham com esta coisa, que eles chamam de maracá.


Ao explicar o formato do maracá, Staden faz uma comparação com um recipiente e uma medida da sua época, o “Mass”. Franco e Bojadsen simplesmente traduzem por “pinta”, uma obscura medida de volume arcaica portuguesa, sem dar ao leitor pista alguma sobre sua origem ou sobre o valor desta unidade. Optei por traduzir como “medida” e incluir uma nota explicativa para que o leitor possa estimar o volume que Staden atribuía ao maracá. Além da imprecisão sobre a medida, Bojadsen certamente não percebeu a desconfortável impressão sonora e semântica que a expressão “panela de meia pinta e oca por dentro” pode causar ao leitor.

A versão de Tiemann traz diminutivos como “Stocklein” e “Steinlein”, que reproduzo como “bastãozinho” e “pedrinhas”, enquanto Fouquet prefere um registro mais formal, “kleine Steine”. Como Carvalho Franco e Bojadsen seguem Fouquet, o efeito é claro: o texto soa mais protocolar e formal que o original. Será que Fouquet temia que ao usar diminutivos Staden parecesse infantil? Ou talvez que o próprio tradutor parecesse pouco sério?

Quanto às palavras de origem tupi, optei por grafá-las em verde. Trata-se de um recurso atualmente muito simples e útil, e do qual suponho que Staden teria lançado mão se estivesse disponível na época. Uma outra intervenção de caráter tipográfico foi a opção por diferenciar os diálogos com aspas e itálico. Considerei que isto torna o texto mais coerente e altera pouco o sentido original do texto. Já as traduções existentes mantém a forma de Fouquet, sem manter regularidade na forma como os diálogos são representados. Ora trazem aspas, ora não.

Como já havia mencionado, o texto de Staden contém várias repetições, e elas estão presentes tanto nas versões de Fouquet como na de Tiemann. Neste trecho em particular, o verbo chocalhar “rasseln”, aparece repetido. É interessante notar como ambos os tradutores brasileiros parecem abominar a repetição e optam por alterar o estilo usando paráfrases ou termos análogos:


Karl Fouquet

Joachim Tiemann

[...] dass es rasselt. Damit rasseln sie, wenn sie singen und tanzen.

[...] dass es rasselt, rasseln damit, wenn sie singen un tanzen, [...]



Guimoar Carvalho Franco

Angel bojadsen

[...] de modo que chocalha. Sacolejam isto quando cantam e dansam.

[...] de modo a fazer um chocalho. Com isto fazem barulho quando cantam e dançam


A minha opção foi por manter a repetição, apenas inserindo um espaço entre os termos repetidos:


Werner Plaas

[...] põem pedrinhas dentro para chocalhar. Quando dançam e cantam, chocalham com esta coisa, [...]


  1. Adivinhe quem é o feiticeiro


Outra diferença que me chamou a atenção neste capítulo selecionado foi sobre o termo “Wahrsager”:


Karl Fouquet

Joachim Tiemann

Nun gibt es einige Leute unter ihnen, die sie Pajé nennen. Die werden bei ihnen geachtet, wie man hier die Wahrsager achtet.

Es sind nun etliche Leute unter ihnen, welche sie Pajé heiβen. Die werden unter ihnen geachtet, gleichwie man hier die Wahrsager achtet.


Carvalho Franco

Angel Bojadsen

Werner Plaas

Há entre êles algumas pessoas a que chamam Pagé. São considerados por êles como aqui se consideram os adivinhos.

Há algumas pessoas entre eles a que chamam pajés. Eles são ouvidos como aqui se ouvem os adivinhos.

Há algumas pessoas entre eles que são chamadas de pajé. São respeitados como os adivinhos são respeitados por aqui.


Aparentemente todos nós tradutores concordamos que “adivinho” é o termo mais adequado para descrever “Wahrsager”, entretanto, ao meu ver, Carvalho Franco e Bojadsen falham ao caracterizá-los. “Ser considerado” ou “ser ouvido” definitivamente não têm a mesma força que “ser respeitado”. Nossos tradutores esvaziaram a importância que Staden estabelece entre pajés e adivinhos.

No resto do capítulo, Staden descreve as ações do “Wahrsager”, repetindo este termo inúmeras vezes. Fouquet e Tiemann respeitam estas repetições, mas os tradutores brasileiros, não. Inexplicavelmente substituem “adivinho” por “feiticeiro” em suas traduções, alternando as expressões sem qualquer critério evidente. Além desta palavra, os tradutores alternam o termo “maracá” com “matraca” com a mesma sem-cerimônia.


  1. Voz alta ou voz baixa?

Para encerrar, aponto para uma divergência que notei entre as versões em alemão moderno.


Karl Fouquet

Joachim Tiemann

Dann hält er die Rassel dicht vor den Mund, rasselt mit ihr und sagt zu ihr: „Né cora“, nun, rede und lass dich hören, wenn du darin bist. Dann spricht er mit hoher Stimme und schnell ein Wort, sodass man nicht gut unterscheiden kann, ob die Rassel oder er es tut.

Danach nimmt er die Rassel dicht vor den Mund und rasselt mit ihr und sagt zu ihm:“Né corá“, „Nun rede und lass dich hören, bist du drinnen.“ Dann redet er leise und gerade ein Wort, so dass man nicht wohl merken kann, ob es die Rassel tue oder ob er es tue.


Carvalho Franco

Angel Bojadsen

Werner Plaas

Segura então a matraca bem junto à boca chocalha-a e diz-lhe: “né corá”, fala agora e faze-te ouvir, se aí estás. Profere após em voz alta e depressa uma palavra, de modo que não se pode bem distinguir se a emitiu êle ou a matraca.

Então ele segura o chocalho bem próximo à boca, agita-o e lhe diz: “Né corá”, agora fale e faça-te ouvir quando estiver aí dentro. A seguir fala em voz alta e rapidamente uma palavra de modo que não se pode reconhecer direito se é ele ou o chocalho que emite o som.

Ele põe então o chocalho junto à boca, chocalha e diz para ele: “Né corá”, “agora fale, queremos ouvir se você está aí dentro”. Então, em voz baixa, ele fala rápido uma palavra, de forma que é difícil saber se foi o chocalho ou o adivinho quem falou.


Afinal, o pajé falou em voz alta ou baixa?

Consultando o original, temos:

Infelizmente ainda não tenho suficiente experiência com alto alemão antigo para determinar o significado deste trecho. A pergunta fica a ser respondida.

  1. Uma nova tradução

A obra original permanece, mas as traduções podem e devem ser atualizadas. A conclusão a que chego é que existe a necessidade de uma nova tradução para a obra de Hans Staden. Seria louvável que se tomasse o texto original ou a versão de Tiemann como referência. Após escapar ileso dos Tupinambás e ter seu texto esquartejado pelos seus tradutores tupiniquins, Staden merece uma nova versão.


i MOREIRA NETO, CARLOS DE ARAÚJO; RIBEIRO, DARCY. A Fundação do Brasil, 2ª Edição, Petrópolis: Vozes, 1993. ISBN 9788532608550

iii STADEN, HANS. Zwei Reisen nach Brasilien (1548 – 1555).(Versão em alemão moderno por Karl Fouquet). São Paulo: Hans Staden Institut, 1942

iv STADEN, HANS. Warhaftige Historia: Zwei Reisen nach Brasilien (1548-1555) /Historia de duas viagens ao Basil. Mit einem Faksimile der Erstausgabe by Hans Staden (2007). (Edição crítica: Franz Obermeier. Tradução ao alemão moderno: Joachim Tiemann. Tradução ao português: Guiomar Carvalho Franco. Publicação em conjunto com o Instituto Martius-Staden). Kiel: Westensee Verlag, 2007. 409 páginas, ISBN 9783931368708